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Nossa cAsa é branca demais

Por que você não vê muitos rostos negros e diversidade de gênero em espaços culturais – o que acontece se você denuncia o sistema?



Você já foi ao teatro, olhou em volta e pensou em como o público é predominantemente branco? A mesma impressão vem à mente ao visitar museus? Se isso acontecer e a resposta for um retumbante sim, então você não está sozinho. Há um grande problema na indústria cultural de diversos países e é hora de todos analisarmos o porquê. Há anos, tem havido um crescente reconhecimento das desigualdades de gênero e raça no setor criativo. A editora Jo Adetunji em 2020 examinou e relatou que o Arts Council England descobriu que era predominante e persistente, as desigualdade principalmente em teatros e museus: 12% da força de trabalho em organizações nacionais no portfólio do conselho eram de origens negras e outras etnias minoritárias e apenas 5% em seus principais museus parceiros. Em cargos de liderança, isso caiu para apenas 9% dos executivos-chefes e 10% dos diretores artísticos em organizações nacionais de portfólio. Nas diretorias dos museus parceiros foi de 3%. Uma pesquisa recente mostrou que 92% dos principais líderes do teatro britânico eram brancos. Na TV, um relatório do órgão regulador de comunicações mostrou que as minorias étnicas também estavam consideravelmente sub-representadas. Ele destacou “uma desconexão cultural entre as pessoas que fazem programas e os milhões que os assistem”. No Brasil, apesar de várias instituições culturais se consternarem mais com as questões de gênero e raça após a morte do afro-americano George Floyd e com a adesão mundial para se discutir colonizado e colonizador - o que se derruba e o que fica em pé, ainda assim, muitos desmontes e retrocesso em prol da cultura negra foram afetados neste atual governo, como é o caso da Fundação Cultural Palmares. Graças a uma estrutura independente e paralela, muitos coletivos e organizações vem surgindo com a contranarrativa de que existe sim uma cultura que é predominante dos povos pretos no Brasil e que nada tem a ver com a "democracia racial". A FALHA Existem muitos fatores pelos quais o setor cultural parece estar circunscrito pela branquitude na ideologia e na prática, na produção e no consumo. As estratégias de diversidade avançam, mas não parecem estar ganhando fôlego até agora, em parte porque “diversidade” para muitos pode ser um termo problemático que muitas vezes pode diluir o problema e despolitizar a questão da discriminação racial. No setor criativo, ele se transformou de uma aspiração de combater a desigualdade racial em uma busca por melhores acessos e oportunidades – uma lógica que reduz o impacto social da desigualdade. Não na prática. No caso de negócios para a diversidade pode ajudar na campanha pela igualdade racial e até de gênero, mas usá-lo apenas como uma ferramenta de negócios pode mascarar práticas discriminatórias e desviar o foco de questões mais profundas de racismo estrutural – por exemplo, em atitudes incorporadas sobre produção artística, seus consumidores e sua exclusividade; atitudes que impõem hierarquias criativas que se alinham com hierarquias raciais e de classe. Mitos sobre a arte de engajar Ainda existem muitos mitos sobre a criação cultural, o que constitui alta ou baixa cultura e as atitudes dos museus e galerias em relação à participação cultural. Opiniões comuns incluem, por exemplo, que o público de maioria negra é difícil de engajar – uma visão que ignora a falta de representação no setor, entre outras realidades relacionadas à educação e classe. Tudo começa com a educação Atitudes sobre cultura também são produzidas e reproduzidas por meio da educação. Os departamentos de arte são provavelmente um dos primeiros e mais importantes blocos da cadeia de abastecimento do setor da indústria cultural em geral. No entanto, um currículo predominantemente branco continua a ser a norma nas disciplinas de artes das universidades – isso porque, na maioria das vezes, o cânone foi construído à imagem da branquitude. Como consequência, a maioria dos estudantes de artes (todas as artes) estudará obras europeias (Shakespeare e Bertolt Brecht), em detrimento de autores africanos, por exemplo, o escritor nigeriano ganhador do Prêmio Nobel Wole Soyinka. Como disse um relatório notável: embora seja um ambiente acolhedor, a disciplina permanece monocultural em termos de equipe e currículos. Os poucos módulos ensinados que se concentram em textos não-brancos são oferecidos como parte de um fluxo opcional, para adicionar “sabor” e não como parte do cânone central. Isso reproduz a hierarquia do conhecimento com a branquitude no topo. Enquanto esses textos, e aqueles que os consomem, são mantidos como parte e dentro da instituição, eles permanecem fora de seu quadro de influência e poder cultural. No entanto, as atitudes em relação à produção cultural permanecem estabelecidas dentro de um estado de espírito que centraliza a branquitude como guardiã da alta arte. Acontece nas instituições Nossas representações são criadas em instituições culturais, e é no seu funcionamento cotidiano, estruturas e processos que as desigualdades de gênero e raça são perpetuadas ou mitigadas. Nos últimos dois anos, a Black Brazil Art reconheceu em chamada pública nacional mais de 1600 artistas dos quais selecionou mais de 700 para duas bienais (Bienal Black) e uma Residência Artística. Para a idealizadora Patrícia Brito, é importante conhecer a produção nacional para fortalecer o discurso da contranarrativa hegemônica de que não há produção artística de artistas negros no Brasil, principalmente de mulheres. Da produção visualizada através dessas chamadas, 74% são mulheres; 76% são mulheres negras; 15% são homens; 11% são não-binário. Sobre o engajamento por localização geográfica, 37% dos artistas são do sudeste (Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo); 17% dos artistas são do centro-oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Góias e Distrito Federal); 25% de artistas são do sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) e 21% dos artistas saem do norte e nordeste respectivamente. Embora algumas instituições tenham introduzido iniciativas de diversidade, como o caso da SP-Arte, maior evento de arte da América-Latina, o progresso parece lento e vinculado a estruturas de financiamento de artes que são temporárias e unidirecionais – em última análise, servindo às instituições de sempre e não às novas instituições, novos eventos, novos artistas e novas produções que procuram engajar. As organizações podem obter financiamento apelando para as agendas de diversidade dos financiadores, mas seu envolvimento com comunidades e artistas de gênero e raça diferentes do habitual, raramente é sustentável ou duradouro, deixando os criativos se sentindo explorados e talvez ainda mais marginalizados. Muitos museus, galerias, teatros e produtoras de TV também visam aumentar as representações nos espaços, palco e na tela, mas precisamos estar atentos para que isso realmente não sirva apenas como fachada. Em última análise, criadores, escritores, produtores, artistas, alta administração e comissários permanecem em sua maioria brancos. As histórias que contam são, portanto, também em sua maioria brancas. A falta de diversidade nas indicações também reforçam esse reflexo que é um exemplo de uma cultura cinematográfica que luta para produzir, representar ou celebrar como é o caso da cineasta negra Camila de Moraes. É claro que a classe desempenha um fator importante na perpetuação das desigualdades no setor cultural, mas às vezes também é usada para camuflar o racismo estrutural em suas instituições. Raça e classe podem trabalhar em conjunto para marginalizar minorias étnicas nos espaços culturais, mas o racismo nos espaços culturais tem uma ligação direta com o racismo nos espaços sociais e isso tem impacto na forma como a nação se imagina – ditando quem pertence e quem não pertence. Há um ganho, no entanto. Novos modos de produção e consumo cultural por meio de canais alternativos e produções independentes vem aproximando mais o público de uma narrativa de mais diversidade - como Netflix, YouTube e Instagram que estão mudando as práticas tradicionais de produção cultural. O próprio filme de Lázaro Ramos, Medida Provisória, conta em grande parte, desse capital diverso sendo um dos filmes quase 100% negro para atender e atrair ainda mais um público receptivo e diversificado. Tais tendências ainda podem forçar as instituições a lidar adequadamente com sua falta de diversidade. Um setor cultural capaz de representar as diversas comunidades e responder aos novos meios digitais de produção e distribuição não pode acontecer sem uma força de trabalho diversificada, instituições que conceituam a diversidade como uma força central, políticas públicas que realmente gerem impacto e órgãos de financiamento que facilitam a igualdade e equidade nos processos de longo prazo em diversos setor em vez de iniciativas de diversidade de curta duração.


Estamos aqui e nossa produção nos acompanha. Talvez da próxima vez que você olhar a sua volta, reconhecerá muitos de nós.


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